Mulher versus mulheres

Ainda não podemos afirmar que tipo de vida uma mulher deve ter para ser minimamente compreendida e aceita. Mas tenho certeza de que, no momento em que ela diz não para namoro, casamento e, sobretudo, maternidade, ela não é de modo algum aceita. E ouso dizer: principalmente pelas outras mulheres. E digo mais: principalmente pelas mulheres cujas vidas giram em torno de um homem e dos filhos.

A maioria delas jamais compreenderá alguém que tenha outros sonhos e que se sente alegre e feliz abrindo mão de tudo aquilo que para elas constituem a própria vida. Quem nunca ouviu uma mãe dizer: Meu filho é minha vida? Quando ouço tal afirmação só me vem à cabeça esse questionamento:

E quem elas eram antes do filho? Nada?

Pois bem, meus pensamentos nunca orbitaram em torno de casamento e maternidade. Criança, adolescente, adulta, em nenhuma dessas etapas persegui tais destinos. Pensava que se conhecesse uma pessoa que me despertasse para o compartilhamento de uma vida isso ocorreria naturalmente. Juntaríamos nossas coisas, habitaríamos o mesmo espaço e dividiríamos bons e maus momentos.

Quanto à maternidade, nunca senti desejo de ser mãe, o que por si só basta para que não seja. Além do mais, a espécie de maternidade a qual imagino que gostaria de exercer não seria possível diante da vida que levo. A atenção, o cuidado e a educação que gostaria de oferecer a um filho seriam impraticáveis, salvo se não trabalhasse ou caso tivesse jornada de trabalho reduzida pela metade. Não gostaria de terceirizar essa função a desconhecidos nem que meu filho fosse criado pela avó. Jamais porque a avó não seja a pessoa indicada, mas para não lhe impor responsabilidade que seria minha.

Também a liberdade que gosto de usufruir seria fatalmente prejudicada. Um filho costuma ocupar demais a cabeça de uma mãe, de modo que muitas vezes ela não consegue estar onde realmente está. E preciso estar em mim na maior parte do tempo.

E mais, em determinadas situações acho tão difícil carregar o peso de nossas próprias preocupações e angústias que não consigo me imaginar tendo de lidar com as frustrações e as dores de um filho que eu amaria tanto e faria de tudo para poupá-lo.

Definitivamente, a função materna não é para mim. E nada tenho contra. Pelo contrário, admiro quem renuncia tanto de si em prol do outro. Ser mãe é sacerdócio, é sacrifício. Pode ser de uma nobreza incomparável, mas satisfaço-me em me dedicar a outras coisas que talvez não sejam tão nobres, no entanto me dignificam e me realizam.

Ocorre que uma mulher pode gozar uma vida fenomenal, trilhar uma brilhante carreira, possuir um talento incomum, dedicar-se a atividades que animam seu espírito, desenvolver um intelecto admirável, ter imensa capacidade de amar outros amores, se deliciar com as próprias escolhas, contemplar interiormente o seu percurso e pensar “quão magnificamente vivo!”, mas se ela não tiver um homem ao seu lado e filhos que a qualifiquem e a legitimem parece que tudo o mais não é o bastante para se afirmar mulher.

Precisamos acabar de uma vez por todas com a ideia de que a mulher não pode optar por outros caminhos, inclusive ficar sozinha. Afinal, “a solidão é um luxo”, diz Clarice Lispector. A solidão não é nada ruim para quem tem a si mesmo em verdade, gosto e profundidade.

O mundo é dotado de enorme diversidade, mas a mentalidade humana pode ser de uma pobreza sem igual, quer se firmar nos mesmos e conhecidos caminhos. E o que é pior, quer fazer os outros acreditarem que as próprias escolhas são as mais acertadas e por isso devem ser seguidas.

Por que a necessidade de convencer os demais a seguir o destino que seguimos? Porque quando isso ocorre, valorizamos mais a nós mesmos. Se o outro faz o que eu faço, confio mais em mim, confirmo que estou certo e me reafirmo perante a minha própria pessoa. Puro sentimento egóico de autoafirmação. Ernest Becker diz nesse sentido: “Ver os outros como iguais a nós é acreditar em nós mesmos.”

A vida comporta muito mais. A mulher pode ser livre para viver de acordo com o próprio desejo e vontade desde que tenha coragem de dizer não a tudo que lhe querem impor. Não é fácil nadar contra a correnteza, mas como cantou Cazuza, serve para exercitar os músculos. “Pro dia nascer feliz” é preciso ter pulso para bancar o que se quer, olhar-se no espelho e dizer: “Essa é a vida que eu quis”.

No conto “Trecho”, de Clarice Lispector, Cristiano avisa a Flora que a vinda dele até ela constituirá o grande fato de suas vidas. Ela dirige-se a um bar e fica horas e horas esperando por ele. Quando o garçom lhe pergunta se quer um refresco, responde: “Eu não quero refresco, eu quero Cristiano.” Enquanto o aguarda pensa e repensa a própria vida. Tem uma filha. Acabará abandonada como tantas outras mulheres com seus filhos?

Quando criança, Flora brincava de tudo, até de soldado. Um professor de francês lhe disse que ela poderia ser poeta. A mãe sentenciou que Flora prenderia quem bem quisesse. Ela sabia fazer muitas coisas e muito bem feitas. No entanto, estava ali parada lembrando-se da filha que deixara em casa e à espera do amante.

Flora relembra um episódio em que avista uma mosca rondar uma xícara de chá: “porque é que possuindo um belo par de asas não voam mais alto? Serão impotentes essas asas ou sem ideal as moscas?”

Por que as mulheres não voam mais alto? Impotência ou falta de ideal?

Ela sabe que poderia muito mais do que ficar à espera de um homem. Diz estar pronta para a vida, diz ser superior porque sabe que existe. Tem dimensão do quanto tem condições de voar alto, mas está ali desolada num bar enquanto o homem não chega.

Ela se diminui ao tamanho da filha a que chama Nenê. Diz-se pequena, reduz-se para caber apenas nos braços de Cristiano.

E ao pensar no quanto seu destino poderia ser diferente, ela se resigna: “É que em vez de gritar, de reclamar, só tenho vontade de chorar bem baixinho e ficar quieta, calada.”

Cristiano chega e Flora já não pensa em mais nada.

O casamento pode ser um caminho. A maternidade outro. Mas não são os únicos. Existe outras maneiras de se realizar. Uma mulher pode perfeitamente dizer não a tudo aquilo que a maioria espera dela, mas precisa dizer sim ao que ela espera dela mesma.

O preço a ser pago por ceder às pressões dos outros pode ser muito alto e até impagável. Se tivermos que bancar algo que seja em virtude de nosso mais genuíno querer e não proveniente da vontade alheia.

Se tiver que comer uma fruta proibida que seja a escolhida por si mesma, e não a oferecida pelas outras Evas, afinal de contas elas só nos dão maçã. E há muitas frutas mais saborosas e suculentas por aí. A maçã é só uma entre tantas. E quer saber? É a fruta de que menos gosto.

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