O mal-estar na mulher moderna

Nas suas memórias, a escritora, filósofa e ativista francesa Simone de Beauvoir declara que decidiu não ter filhos em nome da liberdade de que dispunha, da sensação de bastar-se a si mesma e do fato de um outro não caber dentro do seu principal projeto de vida – a criação de uma obra que afirmaria sua existência neste mundo e que, de algum modo, o beneficiaria.

Não restam dúvidas de que ela conseguiu sagrar-se vitoriosa naquilo que se propôs, mas gosto de enfatizar que não foi sem custo. Atingir aquilo que se quer não necessariamente significa consegui-lo sem percalços ou consequências. Ela pagou um preço, entretanto a importância de sua vida e obra é inegável. Não se pode conceber a mulher moderna sem a influência do pensamento de Simone.

Crescida em ambiente burguês, numa época em que à mulher era relegado papel secundário, não desejou para si as funções de dona de casa e mãe, muito menos o confinamento doméstico a que outras estavam submetidas. Escolheu a Filosofia como bússola, uma vez que a racionalidade era o principal meio de suplantar crenças e limitações repassadas pela religião a que a família se apegava e se utilizava para inibir e proibir.

Simone perdera a fé num ser superior de quem se originaria nossa essência. Para ela, não somos seres marcados para fins definidos. A vida se constitui à medida de nossas escolhas. A existência precede a essência.

Decidida a dar à sua vida o contorno dos próprios anseios e pensamentos, abriu mão da maternidade – de procriar – para unicamente criar.

Ao acompanhar o raciocínio da filósofa quanto ao aspecto da escolha pela não-maternidade percebe-se o entendimento, que compartilho, referente ao tempo, à disposição e à renúncia necessários ao empenho para se formar um ser que nasce totalmente frágil e inteiramente dependente. Um ser cujo psiquismo vai se estruturar, em princípio, a partir dos pais. Filho é uma espécie de projeto que não se terceiriza sem danos. Não posso pedir que alguém conclua um livro que comecei a escrever sem prejuízo da integridade e da fidedignidade de minhas ideias.

Não se pode estar em dois ou mais lugares ao mesmo tempo, desempenhando-os com igual maestria, e para estar no lugar único de escritora e filósofa pensantes Simone abriu mão de todo o resto. Radical? Extrema? Que seja! Inegavelmente fiel ao ideal de vida que estabeleceu para si.

Aqui insiro o “O mal-estar na mulher”, expressão furtada do pai da Psicanálise. Se Simone de Beauvoir abriu mão de muitas coisas para criar uma vasta obra que conferiria mais liberdade e independência às mulheres, a mulher moderna não está disposta a abrir mão de nada em meio às inúmeras possibilidades de que dispõe. Ela é um faz-de-tudo, uma super poderosa que já não consegue mais disfarçar o próprio esgotamento e a culpa diante de filhos que exigem-na ao final de um dia cansativo de trabalho. Mais liberdade de escolha, não necessariamente satisfeita frente a tantas alternativas.

O que querem as mulheres? Freud, mesmo com extensa e profunda prática psicanalítica, quedou-se mudo: “Eis o grande mistério que não consegui resolver, apesar de meus trinta anos de pesquisa sobre a alma feminina: o que a mulher quer?”

Ouço repetidamente a frase: “Lugar de mulher é onde ela quiser.” Mas o que resta de alguém que deseja estar na empresa durante nove horas, na casa com os filhos, na cama com o marido, na academia de ginástica, no salão de beleza, nas aulas de mestrado e num barzinho tomando cerveja com as amigas? Tantas coisas para usufruir, um só corpo a dispor. Simone não pensaria duas vezes e responderia Freud: “Das outras mulheres, nada sei. Quanto a mim, quero escrever livros.”

Se me utilizo dela como exemplo de pessoa que percorreu via única não é com o fim de pressupor que a mulher deve vislumbrar apenas uma possibilidade ou de que não deve ocupar todos os espaços. Mas é preciso saber que diante do duplo ou múltiplo pode-se deparar com o sentimento de pura impotência, de que alguma coisa é sacrificada em prol de outra, como a delegação da educação dos filhos em nome da profissão, que muitas vezes vem acompanhada do sentimento de culpa ou da necessidade de compensação ou da entrega de presentes.

Numa entrevista, Laura Cardoso confessou que não acompanhou de perto o crescimento dos filhos, o que foi exercido pela avó das crianças. Para ela, absolutamente nada importava tanto quanto ser atriz. A profissão era o seu principal caminho de realização. Mas são poucas as que têm coragem de dizer e assumir que não se sentem realizadas na qualidade de mães. Algumas até o fazem com a ressalva que precede à queixa: “Amo meu filho, mas odeio a maternidade.”

A escritora Clarice Lispector escrevia no sofá de casa, com a máquina no colo, para que os filhos a interrompessem no momento que quisessem. Era uma maneira de amenizar a culpa por se dedicar a algo que não fosse eles. O mais velho foi incisivo: “Não quero que você escreva. Você é uma mãe.” Ela escreveu até o último suspiro.

Intitulo “O mal-estar na mulher” o visível cansaço das mulheres diante da imensa quantidade de tarefas e responsabilidades que chamaram para si, somadas às exigências da função de mãe. Faz parte do discurso de muitas a declaração de que podem ser inúmeras coisas a um só tempo, o que soa quase como pedido tácito de aprovação ou necessidade de convencer a si mesmas e aos outros de que a independência e a liberdade duramente conquistadas somente se legitimam num rol variado e extenso de atividades simultaneamente desenvolvidas. Como se precisassem apresentar inventário de ações com vistas a assegurar a manutenção de direitos, o reconhecimento de capacidades e, acima de tudo, o merecimento.

A filósofa Maria de Lourdes Gouveia reflete que a mulher moderna é tributária do amor livre, do divórcio, mas também de uma geração que acumulou fazeres. Esta mulher convive com as conquistas, pode trabalhar, o que é perfeitamente desejável, mas ao mesmo tempo não abriu mão de cuidar da casa, dos filhos, da família, das crianças, levá-las ao psicólogo, à natação. Enfim, não abriram mão de todos os deveres maternos e ainda acrescentaram deveres a esses deveres. No entanto, o tempo continua o mesmo; o dia tem as mesmas vinte e quatro horas.

Eis a questão: como fica o olhar interno dessa mulher para ela mesma? O feminino encontra-se existencialmente compromissado e existencialmente dividido. E não é uma divisão dual, ou seja, ser dona de casa e profissional. É ser dona de casa, profissional, orientadora, acompanhadora… mil coisas. As tarefas femininas se pulverizaram e as mulheres se compromissaram com todas essas funções.

Pergunta-se: E o desejo? E o feminino expandido? E a delícia de ser quem é? E o contato consigo? E o mínimo de reflexão sobre esse si mesmo? Sobre essa pessoa que adita o seu interior? E o convívio com a criança e a adolescente que se é? E os seus sonhos de adolescência? E os seus desejos de jovem e adulto? Como é possível administrar tudo isso ao mesmo tempo? Porque o desejo, essa icônica energia expandida, está presente no mundo e também é histórico. Onde fica a mulher em meio a essa multiplicidade de tarefas e de desejos? Ela se multiplica com que fundamento? Onde encontra apoio e ajuda?

Por fim, a professora Maria de Lourdes conclui que o desejo feminino atual é profundamente solitário. As mulheres estão divididas, pulverizadas nos seus objetos e nem sempre encontram apoio ou energia para alavancar o instrumento de que se utiliza, o próprio corpo, que se transforma tão somente num objeto a serviço do Outro. Um corpo que se quer padronizado e que, a despeito de atender todas as exigências, não se individualiza, não sabe de si. Na sua visão, as mulheres se coletivizaram, acrescento, se escravizaram, de modo que deixaram de ser pessoas conscientes de si e de conviverem consigo.

Foi para não se perder de si mesma e do principal e único projeto de vida – escrever – que Simone de Beauvoir abriu mão da multiplicidade de afazeres. Mas na unicidade do seu caminho triunfou implacável.

Ela não se definiu como burguesa, religiosa, ateia, mulher, mãe, professora, filósofa. Não se perdeu na tentativa de corresponder às várias funções que fragmentam e dilaceram a individualidade. Nem mesmo se confundia com o próprio nome.

É como se a ouvisse dizer “eu sou eu”, e se isso não bastar, nada mais basta.

Cura da feiura

A verdade é que não consigo ou mesmo não tenho intenção de acompanhar o ritmo acelerado de minha mãe. De quando acorda à hora de dormir, ela arruma mil e uma tarefas, resolve pendências, inventa o que fazer e ainda lhe sobra disposição para academia, caminhada e mais coisas que lhe ocupam o dia que, se em outros lugares tem vinte e quatro horas, em Coribe totaliza quarenta e oito.

O que gosto de fazer quando estou lá é ver o tempo não passar. Se o tédio ameaça essa falta do que fazer, induzindo-me a imaginar que os minutos poderiam passar mais depressa, penso: mas para quê? Leio, tomo café, converso um pouco, dou risada, vejo vídeos. Às onze, o almoço está pronto. Leio, passeio pela cidade de ruas e pessoas iguais, descanso; descanso mais um pouco; penso em nada, penso em tudo. Deito-me, olho para o teto, levanto-me. Em ritmo lento vou acontecendo.

A vida me aquietou, me amansou a ponto de às vezes minha mãe dizer: “Você está é rezada. Vou levar você até Seu Matias para te benzer.” Não sou boba de recusar e sigo com ela até o benzedor crente de que ele retirará os males que pesam o meu corpo e que me fazem cultivar certa preguiça. Esta, se já não fosse pecado capital, boa coisa não seria; bem sei.

“Quem está colocando esse olho gordo em cima de você?”, pergunta Seu Matias após terminar o ritual.

Realmente, não sei.

Enquanto conversamos sobre a vida, eis que aparece uma pessoa à porta. Ao perceber nossa presença intimida-se. Seu Matias a olha; quieto, pensativo, não faz a menor questão de mandá-la entrar. Ela dá meia volta sem dizer palavra.

Diz-nos que aquela mulher vai à sua procura todo o tempo. Para quê? Pois que ele ainda não aprendeu a reza para curar feiura. Caímos na gargalhada, pois por essa jamais esperávamos.

Ao nos despedirmos, Seu Matias pede que eu volte numa sexta-feira a fim de fechar meu corpo para que nada de ruim me atinja. Esse pedido muito me alegra, é claro! É sinal de que o meu mal é curável.

E também sou muito vaidosa para admitir a feiura. Caso fosse por ela acometida, moveria céus e terra para livrar-me. Ou imitaria essa mulher que planta os pés na casa de Seu Matias. Mas que ele teria de dar jeito, teria.

Ah se teria!

Faz um friozinho delicioso. É domingo. A rua está silenciosa, poucos veículos dão sinal, nenhum transeunte.

A paisagem quieta, quase imóvel; o sol escondido detrás do céu nublado que, se não me angustia, lembra-me a tristeza de uma falta.

Ouço o canto dos pássaros e o sino da Catedral alcança meus ouvidos, embora não me traga Deus. Abri todas as janelas, o vento invade o apartamento, balança as cortinas e estou só.

Vou até a cozinha, preparo um café, a bebida de minhas doces lembranças. Meu avô entregando-me uma xícara quente; em torno da garrafa, a família reunida na calçada da casa de minha avó, aquecendo-se de goles, falas e risadas.

Lembro-me dos últimos dias gélidos que vivi em Brasília. Tudo parecia estar morto, menos eu. Parei na Kopenhagen, pedi um chocolate para esquentar a boca e o corpo enquanto lia “Viver apaixonadamente com Soren Kierkegaard”, cuja mensagem contrastava fatalmente com os sentimentos que lia nos rostos dos que passavam.

Na ausência do único abraço que desejava, da única voz que ansiava ouvir, a vida não estava desprovida de encantos. Mas um nó atravessava minha garganta, um choro contido há séculos prestes a rebentar, e o gosto do fracasso que o chocolate não adoçava. Tudo ruía.

De repente, o que fizera parecia ter sido em vão. E quem amara a maior de todas as ilusões.

Em casa me perguntava o que fazia naquele lugar, que queria ao insistir na secura da terra e das gentes. Partiria em fuga do que era, do que sentia e de por quem sofria.

Hoje não sou menos, nem sinto ou sofro menos que naquele dia desértico do meu desespero. O que tenho não é mais do que tive.

Estou só – só com essa grandeza que não serve a nada.

Sede de saber

Por dentro, a inquietação. Menina, pequena em corpo, mas possuída pelo desejo grandioso e palpitante de apreender e abocanhar o mundo, tragá-lo de uma só vez. O que ou quem satisfaria minha sede de conhecimento?

Nem Deus!?

Ao meu redor não supunha que alguém pudesse me fazer compreender, dizer-me coisas que fossem mais interessantes que as próprias vidas confinadas e limitadas ao estreito âmbito doméstico, permeado de relações familiares de desavenças veladas, ciúmes disfarçados e caminho certo – o casamento forçado, a maternidade como destino maior para as mulheres; e para os homens, o que viesse.

Mas casar não me ocupava; ter filhos, muito menos. Se essas coisas acontecessem seriam em decorrência do próprio ato de viver, e não como consequência da realização de meus sonhos. Porque, quando sonhava, e como sonhava!, era com coisas que só dependiam de mim mesma para me trazer a plenitude, ainda que fosse por um momento que durasse não mais que um momento.

Talvez os livros fossem a esperança de minha ânsia de expansão, pois, se por fora, via-me delimitada frente ao espelho, por dentro, absolutamente nada me dimensionava. Demais coisas não poderiam ser melhores do que ler. Então lia com um prazer não experienciado sob outras formas; o tempo parecia não existir e o espaço nunca fora uma questão. Qualquer lugar em que esteja, se estou comigo, representa o mundo todo.

Ninguém me dava sugestões ou me impunha sobre o que ler; eu era impelida pela minha própria curiosidade e busca; pelo meu próprio ardor.

A cor da capa, um título ambíguo, certo estilo de escrita insinuante me seduziam de tal modo que não procurava referências a respeito do objeto que segurava. Ia às cegas ao encontro daquilo que me queria ou me escolhera antes de sequer pensar, pois carrego a desconfiança de que são os livros que nos levam até eles e não nós quem os escolhemos.

A emoção me tomava a cada leitura; uma frase alterava a ordem das coisas; uma palavra era suficiente para iluminar o dia ou me conduzir para além de tudo que me era familiar. Sentia o contato com os livros me fazer crescer, aumentar meu tamanho que já presumira não ter marcos.

Um conhecimento me conduzia a outro, tudo me interessava, nada era forte o bastante para me prender; nada me bastava. Queria mais e mais, pois à medida que se conhece agiganta a certeza de que tudo é pouco. Uma vida não é o bastante para o tamanho e a profundidade de minha sede.

A inquietação permanece. Resvalo de um livro a outro, saboreio páginas de assuntos diversos, “bebo água de todo rio”. Ao tempo em que procuro entender sobre a mais ínfima partícula da matéria, aceito me perder nos misteriosos sentimentos humanos.

Se nosso mundo cresce à proporção do que sabemos, quero a amplidão do infinito que não sei. Deixo-me levar ao chamado do que me solicita, não crio barreiras ou resistências diante do novo que me exige. Não pertencendo a nada, estou aberta a tudo.

O desejo de saber o que está para além do que se sabe nutre a minha alma e me salva a vida. Convida-me a vivê-la com a mesma intensidade de quem, pousando em solo inexplorado, começa a dar os primeiros passos.

Encontros

Mal podia aguardar aquele momento em que ouvia o som do interfone. Ainda na véspera punha-se em espera, demorava a pegar no sono, acordava de madrugada. Suspirava!

Ele vinha desde o prévio anúncio que a preparava para recebê-lo. O coração palpitava de ânsia e alegria misturadas ao desejo de quem anseia o objeto a ser tocado. Se era amor, não sabia. Mas não havia de ser outra coisa. Ficava suspensa no ar, dava voltas e mais voltas para acelerar o tempo que não lhe obedecia em troca de promessas.

Abraçava-a com a saudade de outras vidas, como se algo os tivesse separado há anos e anos, como se não pudesse perder um segundo de sua companhia que acontecia séculos e séculos depois de se perderem.

O beijo nos olhos, as bocas se encontrando, as quatro mãos a deslizarem; ele sôfrego.

“Quer água?”

“Não. Quero você.”

Depois aquele olhar brilhante de homem satisfeito. Como se a ela fosse concedido o poder de devolver-lhe a vida, a mocidade, a virilidade. Tudo.

“Um menino”, pensava. E mal podia esperar até que lhe batesse novamente à porta.

Hoje é o teu aniversário; nem vou ligar ou mandar mensagem, como outrora, para lhe dizer que eu estava livre só para você.

Porque você se foi, também me fui. Ainda tenho o papel com suas letras desejosas a querer de perto o que tinha às distâncias. E porque eu era o teu presente de todos os dias e de todas as horas é que não nos somos mais.

A vida me deu você. A vida me tirou você. Abrupta.

Fiquei com aquelas palavras de amor, com o cheiro que exalava do travesseiro, depois que nos despedíamos, e com o gosto de tudo que foi bom.

E o que resta viver de nós permanecerá na memória de um futuro que virá como lembrança daquilo que nunca deixou de ser.

Por quê?

Eu perguntei ao homem:

– Por que as palavras namorado/namorada contêm AMOR, por que amante, além de comum de dois gêneros, a dizer, tanto faz se homem ou mulher, os amantes sempre amam, e até mesmo a expressão “amigo”, do latim amicus, tem no radical “amar”, ao passo que os pares marido/mulher e esposo/esposa não comportam o amor?

Ele, casado, respondeu-me:

-Você sabe bem por quê.

-Sim. Eu sei.

E nunca mais tocamos no assunto.

Ser gente

Parece-me que estou vivendo num mundo à parte ou, como ironizaram, num universo paralelo. A certeza de que a maioria das pessoas são infelizes choca-me. Nada parece bastar aos que seguem a cartilha-padrão de “como viver”. Então tudo que se consegue não sacia a sede das almas que andam rolando perdidas por aí. O rio deságua no mar e ele nunca se enche. Tudo é pouco para quem não sabe o que fazer de si. E quanto menos se sabe maior é a necessidade de encontrar um outro que constitua o lugar de onde tirar a força que não se tem. E todos descem ladeira abaixo.

Dizer-se feliz soa como ofensa. O riso no rosto alheio é uma acusação aos que se alimentam e continuam com fome. De quê, meu Deus? E a resposta é Deus.

Ser feliz é pão de sal com manteiga e café. É tudo tão simples que as pessoas perderam a mão, o juízo e o jeito de ser gente.

FIM

Antes que pudesse saber de mim, eu o vi. E tão logo o quis com a força do que seria irremediavelmente um fato consumado. Por vias incertas e inexplicáveis estávamos diante um do outro numa fria manhã de junho. Um corpo tremulando por dentro frente a olhos acesos e luminosos de confessado desejo.

Você que seria um improvável a tocar-me se não fossem as palavras que usava com manifesta intenção oculta. Eu, a me achar esperta demais para cair na tentação da vontade, quando dei por mim estava suspirando pelos cantos da casa.

O amor selado por um beijo em cada um dos olhos que, fechados, faziam-me sentir o ímpeto com que viria os muitos mais.

E tudo estava muito bom que já não se pressentisse o anunciado fim. Acabou como começou. Num átimo de segundo as coisas são e deixam de ser.

Um convite

Era companhando minha avó que, menina, eu percorria e desbravava os principais cantos da pequena e interiorana Coribe. Açougues, mercados, farmácias, festas juninas com seus leilões e forrós animadíssimos, praças, casas de amigos e de clientes da venda que minha avó mantinha, residências de familiares, a primeira viagem a Goiânia e as missas aos domingos.

Ela me levava para todos os lugares que frequentava, de modo que só nos separamos por motivo de força maior, quando, aos quinze anos de idade, recebi a mais triste notícia da minha vida – a de que o seu coração não resistira a um infarto.

Amava estar em sua presença, porque queria a proteção que ela me direcionava, sob o argumento de que eu não desfrutava da presença paterna. Na verdade, era, com muito orgulho, a neta preferida de minha avó. Ao afirmar isso não intenciono ferir quem quer que seja, nenhum dos outros netos. Todos sabiam de sua predileção mais que explicada e justificada. Se eles não recebiam dela o que eu recebia é porque a eles fora concedida a sorte de não ter a lacuna e o vazio que eu tinha na alma e que ela, inocentemente, pretendeu tapar. Cada pessoa tem algo que o outro não tem, de modo que cada um tem de lidar com as próprias faltas.

Além do amparo dos meus avós maternos e da minha mãe havia algo intenso dentro de mim e que também me sustentava fortemente. Desde muito criança, muito mesmo, a crença em Deus esteve tão enraizada no meu ser que parecia fazer parte da constituição de todas as minhas células. Eu rezava todas as noites antes de dormir e conversava com Ele diante de minhas apreensões, necessidades e desejos. E, como num passe de mágica, Ele me respondia, presenteava e, quando não, me consolava.

Nunca concebi a inexistência de Deus, nunca a dúvida permeou os meus pensamentos, e isso nem se deve a uma relação pessoal de pede-ganha, a partir da qual poderia culminar uma confiança cega. A crença não brotava necessariamente dessa intimidade que estabeleci com o divino logo na infância, e que perdura. É que em meus pensamentos e sentimentos o mundo e as coisas eram muito bem ordenados e perfeitos para terem vindo do nada. Tinha porque tinha de haver algo muito maior e superior de onde se originaria tudo e todos. Uma força onipotente, onipresente e onisciente.

No catecismo, essas ideias se fortaleciam com o estudo bíblico. E nas missas que frequentava aos domingos com minha avó também era tomada pela fé, reforçada pela escuta do Verbo que sutilmente penetrava.

Mais tarde, morando em Bom Jesus da Lapa, cidade conhecida como a “capital baiana da fé”, em virtude da Gruta do Bom Jesus, pude conviver com uma tia paterna, católica das mais praticantes que conheço.

Ela não me perguntava se eu gostaria de acompanhá-la nos eventos da igreja, apenas anunciava: “Amanhã, às 7, iremos à missa de Santa Luzia.”, “Quarta, às 19, iremos à procissão de Bom Jesus dos Navegantes.”, “Já comprei nossas camisetas do Sagrado Coração de Jesus.”, “Tal dia terá a festa do santo tal.”, e todas as missas, procissões e festas de tantos quantos santos existem, lá estávamos. Eu ia de muito bom grado.

Sempre gostei de frequentar a igreja católica, embora entenda e respeite aqueles que optam por não seguir religiões. A fé, o amor e a caridade podem ser exercidos a qualquer hora e em todos os lugares.

Talvez a memória afetiva que liga a igreja à minha avó e as experiências decorrentes da presença em eventos católicos contribuam bastante para que continue me dirigindo ao templo.

Nunca enxerguei a instituição com maus olhos, mesmo diante do conhecimento de seu passado de mortes, violências e perseguições.

Os homens costumam se organizar em associações com a aparente intenção de alcançar ideais nobres, e acabam tropeçando e se debatendo uns contra os outros devido à própria ignorância. Mas da mesma forma que há, em todas as localidades, pessoas dispostas a guerrear, há aquelas que se empenham por empreender uma espécie de paz que, se não é a esperada, pelo menos representa um avanço.

Onde há humanos, há conflitos, desentendimentos e interesses escusos. Graças a Deus, a igreja católica vive fase melhor que de outrora. Não podemos pagar a dívida passada, mas a partir de agora podemos deixar de ser perdulários. Afinal, foi Jesus quem nos aconselhou nascer de novo, não repetir a história de sofrimentos e de dores. Enfim, seguir em frente e evitar cometer os mesmos erros.

À medida que escrevo, as memórias imperam. Certo domingo, já em Brasília, ligo a televisão e me deparo com a missa de devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Automaticamente, lembro-me do tempo em que caminhava em procissão pelas ruas de Bom Jesus da Lapa, na companhia de minha tia, em comemoração à solenidade.

Numa dessas ocasiões, ela me presenteou com o que seria o coração de Jesus, em veludo, que eu colocara na carteira e, mais tarde, perdera. Em decorrência dessa lembrança, prometi-me comprar, no dia seguinte, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, com a fé de que, ao expô-la em minha casa, as doze promessas feitas a Santa Margarida Maria de Alacoque se cumpririam em minha vida.

As reproduções não são por si objetos de adoração. É óbvio que não se está clamando em nome de um pedaço de madeira ou outro material de que são feitas. Vejo-as como algo que nos remete e nos traz à lembrança quem se quer sentir por perto. É como quando temos saudade de alguém que amamos e olhamos sua fotografia a fim de reavivar aquela presença em nós.

Então, na manhã de segunda-feira, me dirigi ao trabalho. Provavelmente já esquecera que teria de ir comprar a imagem, conforme concebido durante a emoção do dia anterior; mas eis que decido dar uma volta pelo térreo da empresa e, para a minha surpresa, vejo que está acontecendo uma exposição de imagens católicas. Mais surpreendente ainda foi avistar uma linda e única figura do Sagrado Coração de Jesus, que me fez aproximar boquiaberta e incrédula: “É para vender, moça?”

Era.

Comprei.

Não seria coincidência. Como deixar de acreditar que o pensamento do dia anterior de adquirir a imagem não tivesse ligação com aquela exposição? Em treze anos de ofício foi a única vez que vi algo do tipo nas dependências da empresa. A partir daí, passei a me autointitular devota do Sagrado Coração de Jesus e sempre o mantenho exposto em minha casa.

Anos transcorreram entre o que acabo de contar e a mais recente experiência igualmente digna de nota. Ao assistir uma conversa entre um cientista e uma filósofa, Tereza D’Ávila é citada pela riqueza do que produziu a partir de sua experiência mística. A menção à santa faz que me lembre de ter um livro escrito por ela, mas que permanecia intocável desde o momento em que o adquiri.

Paro de ver ao programa a fim de procurá-lo, e o que encontro de imediato é o “Diário de Santa Faustina”, que começo a ler na mesma hora. Deparo-me com a história de que Jesus apareceu-lhe e a pediu que pintasse um quadro Dele emanando, por meio do coração, uma luz branca e outra vermelha, que representariam respectivamente a água e o sangue. Abaixo da imagem deveria estar escrito “Jesus, eu confio em Vós”. Segundo Santa Faustina, Jesus também lhe dissera para memorarem a Misericórdia divina, por meio de uma festa que deveria ocorrer no primeiro domingo após o domingo de Páscoa.

Do momento em que comecei a ler o “Diário de Santa Faustina”, que caiu em minhas mãos por “mera coincidência”, estava há dois dias do domingo seguinte ao da Páscoa. Pensei: “Mas isto é um chamado de Jesus para mim. Preciso ir a essa festa.”

No dia 24 de abril de 2022, às 15 horas, lá estava na Catedral Militar Rainha da Paz para adorá-Lo e honrar-Lhe o convite.

Contei o episódio a um amigo ateu ou agnóstico (ele ainda não se decidiu), que me interpelou: “Mas que provas você tem de que foi Jesus quem lhe direcionou a mensagem?”

Pois é. Fé não se prova. Sentimentos não se explicam. Apenas caminho ao encontro daquilo em que acredito, sem dúvidas ou questionamentos.

Para mim, eu estava na catedral diante de Jesus Misericordioso por acreditar que Ele mesmo houvera me levado até ali. Ao fim da solenidade, fui consagrada à misericórdia divina num absoluto ato de fé.

A palavra misericórdia origina-se do latim: miseratio, derivado de miserere, que significa “compaixão” e cordis, derivado de “cor”, “coração”.

A fé não é racional, nem cartesiana ou matemática. Fé é agir de acordo com o que o coração dita e impele.

Portanto, não posso dar provas de certezas íntimas, das coisas que brotam do cuore. Posso apenas contar minhas experiências e continuar acreditando na presença de Jesus em minha vida sem que, para isso, precise tocar suas chagas com as próprias mãos.